02 Fevereiro, 2010

INDONÉSIA IV

"22h00, 1 de Outubro de 2009, Pangkalan Bun, Kalimantan, Ilha de Borneo

Selama Malam

Apenas hoje soube de um grande terramoto na ilha de Sumatra e mal o meu telemóvel recuperou a rede, recebi muitas mensagens atrasadas a perguntar se estava bem. Fiquei muito sensibilizado com a preocupação de todos mas estive nos últimos dias bem isolado no coração do Parque Nacional de Tanjung Puting na ilha de Borneo e aqui não se fez sentir nada do terramoto. Felizmente não tenho histórias sobre a catástrofe mas apenas de mais uma interessante visita a uma parte da Indonésia.


Ocupando dois terços da ilha de Borneo, Kalimantan é uma das províncias da Indonésia que mais desperta a quem procura aventura. Montanhas, densas florestas, e longos rios marcam a cultura, a história, e o modo de vida da população. O que mais me chamou a atenção foi um Parque Nacional onde é possível encontrar várias comunidades de orangotangos, uma espécie única da Indonésia. Acabou por esse o meu único objectivo da minha apresada passagem em Kalimantan.


Mal cheguei a Kalimantan no aeroporto da cidade de Banjarmasin, procurei alguém para partilhar o Táxi e do Inglês rapidamente passei a falar Português! É a primeira vez que isso aconteceu em todas as minhas viagens. Nos destinos que tenho escolhido, são muito raros os viajantes portugueses, e desta vez também não fugi à regra. Quem encontrei mesmo foi um casal Espanhol de Valencia que em estudos e trabalhos passaram algumas temporadas em Portugal. Hugo e Cristina são ambos engenheiros florestais. O Hugo fez um trabalho de investigação na ilha Terceira e consegue falar um excelente português, com e sem sotaque Açoriano. Também é músico e cantor e até um fado e um Rap Açoriano eu ouvi deste lado do mundo! Muito inteligentes, muito divertidos e muito simpáticos, foram uma óptima companhia nestes últimos dias.


Banjarmasin é uma grande cidade instalada numa zona de rios e canais de água. Como tal existe muita vida em torno da água. Casas flutuantes, mercados flutuantes no meio do rio e muitos barcos fazem o transporte por entre a cidade. A visita à cidade foi mais curta do que esperava! Resumindo uma história complicada, deixei esquecido o meu telemóvel numa agencia de viagens e passei muito tempo até o conseguir recuperar. Já em Madagáscar tinha ficado com o telemóvel estragado depois de um banho de água do mar, e eu estava decidido em não o perder novamente. Não foi nada fácil até porque pouco podia fazer. Acabei por espalhar a mensagem a todos os que conheci de que estava disposto a pagar uma pequena fortuna para reaver o meu telefone. E mais tarde lá apareceu o empregado da agencia no meu Hotel. Ele já tinha jurado não ter visto o meu telefone e a maneira que arranjou para mo devolver foi bastante engraçada e ingénua. Ele disse-me que tinha um amigo muito inteligente que tinha conseguido descobrir a localização do telemóvel. E tinha um mapa desenhado que mostrava a localização a poucos metros da porta da agencia. Levou-me lá de mota e lá estava ele a tocar no chão! Eu agradeci-lhe e fui-me embora. Durante algum tempo recebi algumas mensagens dele a questionar-me pela recompensa! Para a próxima provavelmente ele já não vai devolver o telefone mas de uma maneira ou de outra, ele nunca seria honesto.


Finalmente no dia seguinte viajamos para Pangkalan Bun o ponto de acesso ao parque nacional de Tanjung Puting. Aqui tratámos de tudo para os próximos dias. O parque nacional é acessível apenas por transporte fluvial e são precisos alguns dias a subir o rio até os centros de recuperação e tratamento dos orangotangos. Apesar de remotas, as visitas já são uma rotina aqui e não foi difícil arranjar as permissões da policia, as entradas do parque, o barco e a sua tripulação, e a comida para todos.


A atracção principal são obviamente os orangotangos mas a a visita foi muito mais do que isso. O nosso pequeno barco subiu o rio lentamente por entre uma floresta densa e muitos animais desde crocodilos, borboletas gigantes, aves, e muitos primatas. Passei horas a fio na proa a contemplar este cenário sem nunca me cansar.







A vida a bordo também foi uma experiência muito agradável. O convés superior servia dos nossos aposentos onde a tripulação nos mimava com excelentes refeições. No apertado convés inferior, o capitão dirigia o barco, a sua esposa preparava as refeições, e o assistente do capitão tratava de tudo o resto. Um guia também nos facilitava a comunicação e nos acompanhou em todas as visitas. Nas noites calmas pescámos juntamente com a tripulação para grande entusiasmo do Hugo que é um habitual pescador.


O mais conhecido campo de recuperação é o Campo Leakey fundado em 1971 pela Dr. Galdikas, uma investigadora do Canadá. Agora os orangotangos são uma espécie bastante protegida mas durante muito tempo foram vítimas da desflorestação e da captura para serem vendidos como animais de estimação.


A investigadora Galdikas dedicou-se até hoje ao estudo desta espécie e em recuperar orangotangos capturados novamente para o meio selvagem. No entanto os orangotangos recuperados nunca se conseguem libertar totalmente do apoio do centro, e todos os dias a uma hora certa, alguns voltam para receberem uma dose de bananas e leite condensado. Realmente onde mais vão encontrar uma refeição tão doce no meio da floresta!


As horas de refeições são uma excelente oportunidade para ver alguns espécimes. Mas os orangotangos estão tão habituados aos humanos no Campo Leakey que passeiam livremente e convivem com os residentes a toda a hora. É impossível não ficar encantado com estes seres tão parecidos com os humanos!


Tão perto do fim da viagem, já não conto os dias mas sim as horas que faltam. Amanhã regresso à ilha de Java já em caminho para Jacarta. Mas ainda vou tentar aproveitar o último dia para visitar os templos de Borobudur."



Filipe Tavares

12 Janeiro, 2010

INDONÉSIA III

"14h00, 26 de Setembro de 2009, Makassar, Ilha de Sulawesi

Selama Siang

A ilha de Sulawesi aparece no mapa com uma forma estranha. Mas não é isso que me chama a atenção no meu guia de viagem. Um cenário de montanhas, vulcões, campos de arroz, e um povo de uma misteriosa cultura com elaborados rituais fúnebres, sepulturas carregadas de tesouros, búfalos como animais de culto, casas gigantes com formas de barcos, e familiares falecidos que vivem em casa juntamente com os vivos. Além disso a ilha oferece uma série de atracções naturais com vários parques nacionais que albergam espécies únicas no mundo, e principalmente, uma costa marítima riquíssima com alguns dos melhores locais de mergulho da Indonésia.


Convenientemente localizada nas rotas de voo a partir de Papua, comecei a minha visita em Manado, no ponto mais a norte da ilha. A Indonésia é um excelente país para os praticantes de mergulho e um dos sítios mais populares são as três pequenas ilhas que compõem o parque nacional marinho de Bunaken a cerca de uma hora de barco da cidade.


A ilha principal tem uma pequena aldeia de pescadores e muitos resorts de mergulho. Com tantos barqueiros a oferecer o serviço de transporte no porto de Manado foi fácil lá chegar, mas uma vez lá sou surpreendido com a lotação esgotada de quase todos os resorts. Apesar de ser uma zona maioritariamente cristã, o final do Ramadão no início desta semana foi uma grande celebração por toda a Indonésia. E com dois dias de feriados nacionais foi também uma semana de férias para muita gente que decidiu mergulhar em Bunaken. Finalmente arranjo um lugar no Hotel de Lorenzo, um senhor que afirma ter um avô Português, tal como muitos outros residentes do Norte de Sulawesi.


Fiz três mergulhos em Bunaken. É difícil descrever a sensação de estar debaixo de água e contemplar um espectacular mundo colorido de corais, peixes, tartarugas, e muitas outras criaturas. Definitivamente tenho que comprar uma maquina fotográfica subaquática pois é imperdoável não ficar com registos destas experiências.


Tirando o mergulho os dias em Bunaken foram calmos e relaxantes. Tal como em Madagáscar, tive direito a um bungalow praticamente em cima da praia, embora esta um pouco fora do vulgar com imensas árvores e vegetação dentro da maré cheia. As refeições incluídas no preço são tomadas numa mesa comunitária com todos os hóspedes do Hotel. Foi assim que conheci Marti, uma viajante Checa com um sentido de aventura ainda mais apurado que o meu. Acabámos por viajar juntos durante os próximos dias em que estive em Sulawesi e foi uma agradável companhia.


Tomohon é uma pequena cidade que fica nas montanhas a poucas horas de Manado e Bunaken. A nossa visita foi curta mas bem aproveitada por entre as montanhas nos pequenos e lotados transportes públicos e algumas boleias em carrinhas abertas. Visitámos um vulcão e um enorme lago com casas de pescadores sobre água ao longo das margens. Alguma chuva interrompeu a visita mas até isso proporcionou alguns jogos de ping pong com os locais num animado bar abrigado. A final foi renhida com recurso a vantagens e batota dos locais mas a selecção da Indonésia acabou por ganhar contra a dupla de Portugal e República Checa.


Mas em Tomohon a grande atracção foi mesmo o seu mercado semanal. Tal como me disse um dos seus habitantes, o povo do norte de Sulawesi é cristão e não muçulmano e como tal não tem restrições nos seus hábitos alimentares. Eu também sou cristão e não é por isso que achei normal alguma comida que encontrei à venda no mercado. Morcegos, ratos da selva, cães, e cobras parecem fazer parte da dieta desta gente! O rato e principalmente o cão estavam a ter bastante saída.



Normalmente eu ficaria apenas pelas fotos do mercado, mas Marti estava decidida a experimentar as especialidades locais e eu não podia ficar atrás. Não foi difícil encontrar um restaurante que as servisse. Pedimos morcego e rato! Bem, eu achei a carne de rato mais saborosa mas ambos os pratos estavam intragáveis para mim de tão picantes que eram. Melhor assim que me serviu de desculpa verdadeira para ficar só pela prova.


Ainda no norte de Sulawesi, fomos visitar a reserva natural de Tangkoko-Batuangas. É uma área protegida muito pequena mas com muitas atracções, tais como os pequenos Tarsiers que apenas existem na Indonésia e Filipinas. São uns pequenos primatas nocturnos que me fizeram lembrar os Ayaks de Madagáscar.


Além dos Tarsiers, caminhamos por entre uma comunidade de cerca de sessenta Macacos Pretos que não pareciam muito incomodados com as pessoas. Para finalizar ainda tivemos a oportunidade de avistar algumas aves de grande porte e de escalar o interior de uma árvore de trinta metros de altura! Valeu bem a pena acordar às 4h15 para fazer esta visita.



No aeroporto de Makassar preparo-me agora para deixar Sulawesi. Makassar é o maior ponto de passagem de voos domésticos e aqui separo-me de Marti. Ela vai reencontrar-se com dois amigos Checos que se deixaram ficar no conforto e animação de Bali, e eu escolho Kalimantan, o território da Indonésia da ilha de Borneo."



Filipe Tavares


PRÓXIMA CRÓNICA: [INDONÉSIA IV]

07 Janeiro, 2010

INDONÉSIA II

"19h00, 19 de Setembro de 2009, Wamena, Vale Baliem, Ilha de Papua

Nayak Lak, Lauk Nya

Entusiasmado com histórias de exploradores, missionários, tribos primitivas, um mundo novo ainda por descobrir, decidi viajar logo para a ilha de Papua sem perder tempo em Jacarta.


A ilha de Papua, a segunda maior do mundo, está dividida em 2 partes com uma fronteira que parece ter sido traçada com uma régua. Do lado este, encontra-se Papua Nova Guiné, uma nação independente. Do lado oeste, encontra-se mais um território da Indonésia. Mas esta ilha pouco ou nada tem a ver o povo de Java. Os nativos de Papua tem raças, linguagens, e culturas muito próprias. A maior parte do seu território é inacessível por qualquer meio de transporte e muitos dos seus habitantes continuam a viver de uma forma primitiva tal como viviam há centenas de anos.


Existem até agencias de viagens que organizam expedições de “Primeiro Contacto” que proporcionam aos turistas endinheirados a experiência de serem os primeiros a descobrir uma nova tribo. Não me parece que isso seja mais possível mas sim, existem indígenas com culturas fascinantes sem praticamente qualquer contacto com a civilização. Mas esse tipo de expedições nas zonas mais remotas custam verdadeiras fortunas e exigem muito planeamento, o que não é muito compatível com um viajante sozinho sem planos como eu. Ainda assim, tentei conhecer um pouco da realidade de Papua no Vale Baliem nas montanhas do interior.


Apesar de ser um dos locais mais populares e acessíveis, não foi fácil chegar lá. Foram mais 3 dias entre viagens de avião e preparativos. Um dos passos necessários é conseguir uma autorização da policia mas isso até foi uma experiência curiosa. Depois de algumas tentativas em encontrar a esquadra correcta, um dos policias levou-me até à estrada, mandou parar o primeiro condutor de mota que passou e recrutou-o para ser o meu motorista! Ele pareceu bastante contente em ajudar-me e não se limitou apenas em cumprir a ordem que lhe foi dada, mas como também me ajudou depois a conseguir as fotografias de identidade e as fotocópias do passaporte que eram necessárias. No final ainda me deixou no aeroporto! Foi o maior exemplo da boa hospitalidade com que tenho sido recebido até agora.


Voar até a cidade de Wamena é a única maneira de aceder ao Vale Baliem. Além dos vários voos de passageiros, chegam e partem diariamente aviões com todo o tipo de carga. Tudo o que se possa imaginar vem de avião e tudo é inflacionado conforme o seu peso. Encontrei até uma loja ao lado do aeroporto com entrega de Pizzas take-away que apenas aceita as encomendas de véspera, pois claro as Pizzas são feitas fora e vêm de avião!!


Finalmente em Wamena sou logo abordado por vários guias que se oferecem para organizar uma expedição pelas aldeias do vale. É precisamente essa a minha intenção mas primeiro percorro todos os hotéis da cidade à procura de outros estrangeiros com quem possa dividir a experiência e as despesas. Encontro apenas um casal de Suecos que está de partida! Ao menos fico com a boa referência deles de um guia que não os abandonou ou exigiu um aumento a meio do percurso. Miki Mous, mais conhecido por Mickey Mouse, tornou-se assim o meu guia. Entrego-lhe uma pequena fortuna para ele comprar toda a comida e equipamento necessário e no dia a seguir lá estava ele honestamente na hora combinada à porta do meu hotel.


Para a minha curta expedição de apenas 4 dias pelas montanhas, o meu guia convocou a sua habitual equipa de 1 cozinheiro e 2 carregadores! Eram para ser 3 mas eu fiz questão de levar as minhas coisas. Mesmo assim, demasiado aparato para mim que estou habituado a fazer caminhadas com tudo o que preciso nas minhas costas. Mas é assim que o negócio funciona aqui. Primeiro trabalha-se como carregador enquanto se aprende os caminhos das montanhas, a cozinhar em campo, e a falar Inglês. O cozinheiro é uma posição intermédia que já não leva tanta carga e come as sobras dos cozinhados dos turistas. Já o guia é o chefe da expedição, não carrega nada e come no lugar de honra ao lado dos turistas.


Foram 4 dias excelentes entre as montanhas, florestas tropicais, aldeias e pontes tradicionais, rios subterrâneos, teias de aranha gigantes, noites em redor da fogueira em convívio com os meus colegas de expedição e com as famílias que nos acolhiam.


Percorrer a densa floresta não foi fácil entre terrenos alagados, lama, e troncos de árvores podres. Isso acrescido da dificuldade de subir e descer montanhas a mais de 3000 metros de altitude.


A passagem nas aldeias despertou sempre curiosidade especialmente das crianças. Em todas as noites fomos acolhidos no espaço de uma sempre numerosa família. As condições de vida são as mais básicas possíveis. Apenas pequenas cabanas de madeira e de palha com uma fogueira interior para os proteger das frias noites.


Cada família tem uma cabana onde dorme o homem e os seus filhos mais velhos, uma cabana para a primeira esposa, as suas filhas e os seus filhos mais pequenos, e ainda uma terceira cabana caso o homem tenha uma segunda esposa.


Em cada aldeia acabei por ser sempre o fotografo das fotos de família, e médico! Por acaso até trouxe doses extras de medicamentos e um termómetro nesta viagem, mas não acho que tenha conseguido ajudar muito.


Os missionários converteram e mudaram alguns dos hábitos deste povo como as guerras tribais, a prática de canibalismo, e a quase completa nudez. Mas ainda assim, de vez em quando surgia do nada um homem protegido apenas com a sua Goteca.


A expedição foi também uma boa oportunidade de conviver com o meu guia e os seus colegas e discutir um pouco sobre tudo de Papua, a sua história, a sua cultura, e a sua situação política actual. Descobri que Xanana Gusmão é também um herói aqui. Existe um grande movimento de luta pela Independência de Papua e Timor Leste é visto como um exemplo de sucesso. A autorização da policia serve precisamente para garantir que os turistas estejam longe das zonas de conflito.


Depois destes dias, fiquei com curiosidade de visitar outros locais de Papua mas entretanto já tinha comprado a viagem de regresso e amanhã vou para Manado, no norte da ilha de Sulawesi."



Filipe Tavares

PRÓXIMA CRÓNICA: [INDONÉSIA III]

30 Dezembro, 2009

INDONÉSIA I

"16h00, 11 de Setembro de 2009, Aeroporto do Porto

Depois de uma série de dias atarefados acalmo-me finalmente à espera do avião e começo a sentir o entusiasmo de uma grande aventura. Viajar já é um hábito para mim mas mais do que isso, já se tornou um vício. Não consigo imaginar um ano sem aproveitar as minhas férias para fazer uma grande viagem, nem que o tenha que fazer sozinho. As oportunidades de viajar são preciosas e a escolha do melhor destino é sempre uma preocupação. As últimas viagens foram tão boas e as expectativas são cada vez mais elevadas. Não foi fácil desta vez mas acabei por escolher a Indonésia.



Entre o Sudeste Asiático e a Austrália, a Indonésia é composta por 17 000 ilhas que se estendem 5 000 Km ao longo do equador. Oferece experiências e destinos para todos os gostos desde a incontornável ilha de Bali, os lagos de Kelimutu em velhas crateras de vulcões, os magníficos templos de Borobudur, os rituais de Tana Toraja, na ilha de Sulawesi, o surf em Lombok, o mergulho em Manado e na ilha de Bunaken, o Parque Nacional de Komodo ou a bela ilha das Flores.





Apesar de todas estas informações e da minha decisão, sinto-me partir completamente à descoberta. Espero não ficar desiludido. A minha ideia é arranjar um voo para uma das ilhas mais remotas assim que chegar a Jacarta. Ainda não sei qual mas vou aproveitar o longo voo para estudar o guia e decidir.





Espero enviar boas noticias em breve."

Filipe Tavares

PRÓXIMA CRÓNICA: [INDONÉSIA II]

NOVO ALMA NÓMADA

O Hélder não está aposentado, apenas mais ocupado do que o costume com o seu último projecto, a sua loja de produtos biológicos Mercatu, Alimentos Autênticos




Assumo então a co-autoria do blogue começando com os relatos da minha última viagem à Indonésia!

Filipe Tavares

17 Dezembro, 2008

MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR X

"05h00, 14 de Dezembro de 2008, Aeroporto de Orly Paris

Bon Jour!

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Os últimos 2 dias na capital passaram muito rápido. Nunca fui muito fã das grandes cidades e Tana em particular não tem muito interesse comparado com o resto do país. No entanto depois de várias semanas a viajar pelas zonas remotas do Madagáscar, é curioso ver uma realidade completamente diferente. Existe uma grande manifestação de riqueza que partilha a cidade com inúmeros pedintes e sem-abrigo. No último dia vagueei sem destino pelas ruas da cidade despedindo-me de tudo. Ainda encontrei o palácio real construido no ponto mais alto da cidade, e o grande mercado onde fiz as últimas compras.

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Agora falta muito pouco para chegar a Portugal. Durante o longo voo de 11 horas entre Antananarivo e Paris, tive tempo para refletir sobre tudo o que vivi durante o último mês. Comparo com os outros países que visitei mas não é preciso muito para perceber que Madagáscar é completamente distinto.

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É fácil saber que existem locais no Mundo onde as pessoas vivem sob condições de vida muito básicas em zonas remotas muito difíceis de alcançar, mas nesta viagem tive oportunidade de presenciar e perceber o que realmente isso significa. Madagáscar é um mundo completamente diferente do que eu conhecia e do que conseguia imaginar. São vários detalhes juntos que fazem a diferença.

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Um muito simples por exemplo é a ausência de electricidade. Na maior parte das localidades, mesmo nas pequenas cidades, a electricidade existe apenas para alguns privilegiados que possuem um gerador e este apenas é ligado nas primeiras horas da noite. A frase habitual “Português? Ah, Cristiano Ronaldo!” não foi assim tão habitual, e foi exclusiva apenas das grandes cidades. Pois como não há electricidade, também não há electrodomésticos, televisão nem qualquer tipo de informação. Encontrei muitos sítios que fazem negócio, montando uma pequena sala de “cinema” com uma pequena televisão. Vídeo clips e antigos filmes de acção americanos são os mais populares. Sem luz, é o sol que dita as horas de dormir e acordar. O meu horário habitual nestes dias foi deitar às 20h e acordar às 6h.

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Também não existe água corrente. Por isso nos rios encontrei sempre pessoas a lavar a roupa, lavar a louça, e tomar banho. Em quase metade dos hotéis onde fiquei hospedado o banho era simplesmente um grande balde e uma caneca, muitas vezes com água turva. Nem vale a pena falar em computadores e internet pois praticamente não existem. As casas são muito pequenas e simples, construídas apenas com a madeira disponível nas florestas.

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No entanto não posso dizer que fiquei muito chocado. Não encontrei ninguém que aparentemente passasse fome. O forte cultivo de arroz criou o hábito de três refeições diárias de uma enorme tigela de arroz, uma quantidade demasiada até mesmo para mim. Pelo menos a quantidade não é um problema. As mangas e outras frutas caem das árvores prontas a comer. Mais do que uma vez cheguei mesmo a ter que me abrigar de uma chuvada de mangas provocada por uma rajada de vento.

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As pobres condições de vida não parecem afectar também a boa disposição do povo de Madagáscar. Encontrei um povo muito curioso, amigável, prestável, e simpático. De facto esta foi a viagem em que mais convivi com os locais. Talvez o facto de quase todos falarem francês tivesse ajudado também. O meu francês não é muito famoso mas foi relativamente fácil comunicar.

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É difícil imaginar que restam apenas 10% das florestas tropicais que existiam antes do aparecimento do homem na ilha. E difícil de aceitar que uma grande parte das maiores espécies animais foram extintas, incluindo o pássaro elefante, a maior espécie de aves de todos os tempos com 3m de altura.

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Talvez os outros países de Africa sejam parecidos com Madagáscar, mas para mim foi uma experiência única. Se o início da viagem é uma altura de entusiasmo e ansiedade, o final da mesma provoca precisamente os sentimentos opostos. Na verdade também tenho alguma vontade de regressar.

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Existem muitas fotos e experiências para mostrar e contar à família e amigos. Dores de garganta e um pouco de febre nestes últimos dias mais um dedo do pé infectado que teima em não recuperar desde a visita à ilha de Sainte Marie também me faz desejar o conforto do meu lar.

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Mas estimulado por uma experiência destas, a vontade mesmo é de continuar a viajar. Mais uma vez prometo a mim próprio que vou fazer algo por isso, apesar de saber que a rotina espera-me já segunda-feira."

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- Filipe Tavares

15 Dezembro, 2008

MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR IX

12h45, 11 de Dezembro de 2008, Aeroporto de Maroantsetra

Salama!

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A planta de Baunilha, originária do México, foi introduzida na ilha de Madagáscar pelos Franceses. O clima sempre quente e húmido da costa nordeste da ilha é muito propício ao seu cultivo e actualmente Madagáscar é o maior produtor de baunilha do mundo. Por esta razão a costa nordeste do país é conhecida pela costa da baunilha. A sua produção trouxe alguma prosperidade a esta zona mas nem por isso trouxe algum desenvolvimento. Continua a ser uma das zonas mais remotas e difíceis de viajar.

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Quase no fim da minha viagem, não é a melhor zona para se estar com todos os dias contados, de qualquer maneira aventurei-me com a segurança de poder viajar de avião caso fosse necessário. Mesmo as visitas aos parques naturais desta zona requerem vários dias e as viagens são tão difíceis e demoradas que passei a maior parte do tempo em viagem. No final, nem perto estive de completar o meu plano de chegar ao norte do país, mas nem por isso foi uma experiência menos interessante.

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Sai de barco da ilha de Sainte Marie bem cedo e procurei a Route National 5, a estrada nacional que percorre a costa até Maroantsetra.
Eu não fazia ideia da regularidade dos taxi brousses nesta estrada nem se viriam com lugares vagos mas a minha ideia era apanhar boléia de alguém caso não conseguisse transporte. Após 3 horas descobri que nenhum carro particular passava naquela estrada. Apenas meia dúzia de Tac-Tacs por dia, os taxi brousse versão todo terreno, os únicos capazes de fazer este trajecto apinhados de pessoas e mercadorias.

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Finalmente consegui um lugar de primeira classe ao lado do condutor mas a viagem não foi fácil. Para arrancar o carro, era necessário sairmos todos para empurrar. O tempo de viagem é imprevisível e quando anoitece a viagem é suspensa até o amanhecer. O semelhante acontece com as travessias dos vários rios. Se a maré não estiver favorável pode ser necessário esperar várias horas. Para fazer apenas 80Km demorei 2 dias, troquei de Tac Tac 2 vezes por causa de avarias e mesmo o último chegou a parar 2 vezes.

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Praticamente fiz os últimos quilómetros a pé, felizmente bem no meio da floresta tropical do parque nacional de Mananara-Nord. Foi um bom passeio pelas várias aldeias rurais e um bom convívio com os outros meus colegas viajantes.
Finalmente em Mananara, dispensei um dia para recuperar forças, visitar a pequena cidade, e também uma ilha fluvial habitada por centenas de lemures.

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Preparar os próximos passos não foi fácil também. Num momento tinha à disposição um barco e vários Tac Tacs para prosseguir viagem até a próxima cidade de Maroantsetra. Depois de comprar o bilhete de avião de lá para a capital, o barco avariou e afinal os Tac Tacs vinham com um dia de atraso. Já ponderava comprar uma bicicleta para continuar quando me disseram que havia um senhor importante na cidade que ia fazer a viagem até Maroantsetra. Pedi-lhe boleia, ele aceitou, e só depois é que me soube que ele era piloto de um taxi aéreo e que a viagem ia ser de avião! Eu nem queria acreditar. Ainda por cima, além do voo gratuito ainda tive direito à minha primeira aula de pilotagem.

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Nervoso mas seguindo cuidadosamente todas as instruções fiz a descolagem sozinho, ou pelo menos assim ele me fez crer pois na verdade ele nunca chegou a largar os comandos. Em Maroantsetra ainda tentei visitar a ilha e reserva natural de Nosy Mangabe mas já não tive tempo.

Agora preparo-me para regressar à capital e aproveitar o melhor possível os dois que me restam.

- Filipe Tavares

PRÓXIMA CRÓNICA: [MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR X]

MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR VIII

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"19h30, 6 de Dezembro de 2008, Restaurante em Ambodifotatra, Ilha de
Sainte Marie

Salama!

Depois de 24 horas de Taxi Brousse, vi-me obrigado a passar um dia na cidade de Toamasina esperando a oportunidade de fazer a viagem de barco para a ilha de Sainte Marie.

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Outrora desenvolvida como um resort para os franceses na era colonial, a cidade de Toamasina tem actualmente um aspecto decadente mas curioso com muitas casas e edifícios antigos. Tem também um dos principais portos de abastecimento de Madagáscar e é frequentada por marinheiros de todo o Mundo.

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Sainte Marie é uma ilha com 57Km de comprimento próxima da costa leste de Madagáscar. O seu nome actualmente utilizado foi dado pelos portugueses, os primeiros europeus a descobri-la. Os franceses tentaram estabelecer uma colónia na ilha mas foram derrotados por febres tropicais que mataram a maioria dos pioneiros. Desde então a ilha tornou-se um refúgio de piratas que assaltavam os barcos mercantes entre o cabo da Boa Esperança e a Índia. Obviamente os piratas não existem mais e são poucas as marcas visíveis actualmente, mas tão recentemente como no ano 2000 ainda foram descobertos os vestígios do barco de Captain Kidd, o mais popular dos piratas de Sainte Marie. O paradeiro do seu tesouro continua desconhecido.

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Nas zonas mais remotas de Sainte Marie, existe tudo o que se pode esperar de uma ilha tropical. Praias de areia branca, um mar calmo e transparente, muita vegetação e os típicos sons da floresta tropical.
Apesar da forte aposta do turismo, certas zonas da ilha mantêm uma tranquilidade surpreendente. Os seus habitantes ajudam com a sua simpatia e boa disposição. É difícil para mim explicar o quanto fiquei fascinado com ilha. Acabei por ficar aqui vários dias num bungalow a poucos metros do mar.

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Ao mesmo tempo para acalmar o meu espírito irrequieto, aproveitei a ocasião para mergulhar. Desde a minha viagem à América Central que não visitava o fundo do mar e já aguardava pelo regresso com bastante ansiedade. Creio que o local que escolhi foi uma boa aposta. A Ilha de Sainte Marie tem um grande recife de corais e uma grande variedade de vida aquática. Em vez de simplesmente mergulhar, aproveitei para tirar o segundo nível do curso de mergulho da PADI, e experimentei novas modalidades, como mergulho nocturno, mergulho de grande profundidade, mergulho em barcos afundados, e navegação sub-aquática.
Depois de todas estas experiências fascinantes espero que a próxima vez não tarde tanto tempo.

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Também aqui na ilha da Sainte Marie, tive a oportunidade de assistir a uma festa do Zebu. O proprietário Italiano da escola de mergulho deu início à construção de um Hotel e para que tenha boa sorte no seu negócio, a tradição de Madagáscar obriga a que faça uma festa do Zebu para todos os residentes. Toda a equipa da escola de Mergulho, eu e os outros mergulhadores foram também convidados e até nos arranjaram uma carrinha de caixa aberta para nos transportar. A festa dura pelo menos dois dias. O anfitrião compra um ou mais Zebus, conforme o número de convidados, e no primeiro dia faz-se uma espécie de tourada. Os Zebus não parecem tão bravos como os nossos touros, mas os populares encarregam-se de atiça-lo.

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O anfitrião desafia os mais corajosos oferecendo algum dinheiro a quem montar o animal. No segundo dia, mata-se e prepara-se o Zebu para comer com arroz. Folhas de árvores foram usadas para tudo, embrulhar o arroz cozido, para fazer de mesa no chão, e bocados mais pequenos dobrados servem de colher tanto para o arroz como para água de cozedura do Zebu que serve de molho. Gostei da experiência mas não posso dizer que tenha gostado muito da comida!

Amanhã termino o meu descanso e parto de barco novamente para a grande ilha. O meu plano é de aventurar mais para norte para a remota costa da Baunilha!"

- Filipe Tavares

PRÓXIMA CRÓNICA: [MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR IX]

02 Dezembro, 2008

MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR VII

15h00, 30 de Novembro de 2008, Estação de Taxi-Brousse de Manakara

Salama!

Aguardo a partida do meu transporte para Antananarivo e aproveito para escrever mais um pouco. Nos últimos dias tenho viajado muito rápido e agora preparo-me para ainda mais uma maratona de Taxi-Brousse até o Norte de Madagáscar.

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A partida da praia de Anakao foi algo atribulada com o mar turbulento e eu no barco literalmente a tomar um duche de água salgada durante toda a hora da viagem. De volta a Toliara apanhei o meu primeiro Taxi-Brousse para o parque nacional de Isalo. Não foi tão mau como se diz. Tive direito ao meu próprio lugar no mini-bus e à parte de uma galinha me fazer cócegas nos pés, a viagem foi rápida e decorreu sem problemas.

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No parque nacional de Isalo existe a gruta dos Portugueses, uma caverna com uma pequena construção que se crê ter sido feita pelos primeiros europeus a explorar a ilha de Madagáscar. Só pelo nome fiquei curioso mas o local é tão remoto que obriga a uma caminhada de 6 dias. Optei por um percurso mais curto de 2 dias com uma noite de campo. O parque é basicamente uma enorme montanha arenosa formada na era do Jurássico. A caminhada teve início nas planícies que a rodeiam e depois fomos subindo até o planalto. As paisagens são muito distintas e espectaculares. Não existe muita vegetação na maior parte do parque mas sempre que nos aproximámos dos diversos canais de água existentes, o cenário transforma-se numa autêntica floresta tropical com algumas cascatas e piscinas naturais de bónus.

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O local de acampamento foi precisamente numa dessas florestas e os nossos guias não paravam de nos chamar para vermos alguns animais, mochos, camaleões, lagartos, insectos camuflados em ramos e flores, e muitas cobras. Felizmente a minha tenda bem fechada não deixava passar nada.
No final do segundo dia de visita aproveitei para continuar a viagem para norte até à cidade de Fianarantsoa.

A Réseu National des Chemins de Fer Malgaches é constituída por mais de 1000 Km de linhas de caminho de ferro. Esta herança da época colonial sob o domínio dos Franceses, reduz-se actualmente a uma série de estações e linhas abandonadas, excepto num pequeno troço entre Fianarantsoa e Manakara na costa Este da ilha em que o comboio ainda circula tal e qual como os Franceses deixaram.

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Foi uma viajem ao passado numa linha que atravessa plantações de chá e café, florestas tropicais, 17 estações locais, 48 túneis, montanhas, e até algumas cascatas. Esta viagem de comboio é actualmente uma atracção turística com 2 carruagens de primeira classe para os estrangeiros e apenas 1 carruagem de segunda classe (e 4 de carga) para o povo. Ainda assim este comboio que alterna o sentido da viagem todos os dias continua a ser o principal meio de transporte para as pequenas povoações ao longo da linha que a utilizam para transportar as suas colheitas. Eu achei que seria mais engraçado viajar na segunda classe no meio dos populares mas acabei por me enfiar numa carruagem totalmente apinhada incapacitado de me mexer.

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Após 2 paragens lá consegui sair por cima das pessoas e troquei para uma das carruagens de carga, também com pessoas mas com mais espaço e uma grande porta para apreciar as paisagens. A viagem foi um autêntico piquenique com vendedores de todo o tipo de snacks em todas as paragens.

À chegada de Manakara tive que abrir caminho por entre os insistentes condutores de Pousse-Pousse. Por todo o Madagáscar e aqui em Manakara em particular existem muitos condutores de táxis versão carrinho de mão. Não gosto nada da sensação de ser transportado à custa do esforço físico de alguém. Mas é o trabalho de muita gente e mais um negócio que posso proporcionar. Estes transportes não são exclusivos dos turistas, pelo contrário são utilizados por toda a gente. É estranho ver crianças a irem para a escola transportadas por um Pousse-Pousse.
Nem sequer é um transporte mais rápido do que ir a caminhar, é apenas mais cómodo.

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O Hotel em que passei a noite em Manakara parece ser o maior e melhor da Vila. O empregado enquanto mostrava-me o quarto fez uma careta e coçou-se até um lagarto sair por entre os botões da camisa! Em quase todos os quartos tenho visto estes amigos lagartos que me fazem o favor de trepar e comer os mosquitos das paredes, mas nunca tinha visto um que fizesse parte do “serviço” do Hotel.

Ainda em Manakara aluguei uma bicicleta para conhecer a Vila e as pequenas povoações ao longo da costa, terminando assim minha visita ao sul do país. Agora preparo-me para muitas horas de estrada de volta à capital e continuando para norte até à Ilha de Sainte Marie. Aqui despedi-me finalmente de Javi e da Cristina, o simpático casal Basco de San Sebastian que tinha vindo a fazer o mesmo itinerário que eu desde a expedição do rio Tsiribihina.

- Filipe Tavares


PRÓXIMA CRÓNICA: [MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR VIII]

01 Dezembro, 2008

MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR VI

"18h30, 25 de Novembro de 2008, Praia de Anakao

Salama!

Escrevo este texto na varanda do meu bungalow enquanto o sol se põe no mar do canal de Moçambique e uns Lemures de vez em quando se vêm sentar ao meu colo! É mais um momento privilegiado que tenho nesta viagem e motivo de reflexão.

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Há 2 dias atrás estava na cidade de Morondava mais a Norte. Aproveitei um dia na cidade para preparar os passos seguintes. As opções para viajar de Morondava para sul são completamente distintas. Um avião confortável da Air Madagáscar demora 1 hora para fazer os 300 Km até a cidade de Toliara. Para o mesmo destino um camião de carga Taxi-Brousse sobre lotado de pessoas demora 30 horas seguidas.

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Viajar dentro da ilha do Madagáscar é muito complicado pois as estradas são más ou simplesmente inexistentes e a pressão de manter os transportes baratos, obriga a ocupar os transportes com o dobro ou mais pessoas do que o esperado. As alternativas bastante mais caras é voar ou contratar um veículo todo terreno. Tenho a intenção de experimentar uma viagem típica do Madagáscar mas desta vez optei pelo avião agendado para o dia seguinte.

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Ainda em Morondava aproveitei o dia que me restava para visitar a aldeia de pescadores a sul. Apesar de estar muito próxima, um rio sem pontes separa-a da cidade e talvez por isso mantém um aspecto muito tradicional. Foi uma visita muito interessante, com as típicas casas de madeira e palha, uma tenda-escola da UNICEF, muitos barcos de pescadores, um jogo de futebol na praia, e claro, as curiosas e simpáticas reacções das pessoas.

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No regresso quase ao por de sol, ainda encontrei na praia um grupo de amigos a tocar viola e a cantar rap. Eu apresentei-me logo para trocar uns mp3 e dar umas dicas. O vocalista principal chama-se Biggy e já foi à capital gravar uns sons num estúdio. Amador mas bastante bom até, tanto que no início pensei que me estava a enganar. Ele pediu-me várias vezes que levasse a música dele para Portugal como se eu fosse empresário do mundo musical, mas acho que terá mais sorte aqui no Madagáscar.

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Toliara no sudoeste do Madagáscar é um dos destinos mais turísticos do país com quilómetros de praia. Eu optei por uma zona menos visitada a sul, a praia de Anakao. Mais uma vez não existem estradas e tive que ir de barco pelo mar. À chegada fui surpreendido com uma praia e um hotel muito simples mas simplesmente adorável. Tive direito ao meu próprio bungalow literalmente em cima da praia com vista directa para o mar.

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Centenas de conchas e búzios marcam os caminhos pela areia e uns simpáticos lemures de estimação brincam com os turistas. Aqui existem algumas escolas de mergulho mas decidi adiar a experiência para o norte onde existem barcos piratas afundados. Este é um sítio fantástico e calmo para descansar uns dias, mas eu vim mais para conhecer e amanhã já tenho o barco rápido marcado para partir para o Parque nacional de Isalo, um dos melhores e mais populares do Madagáscar."

- Filipe Tavares

PRÓXIMA CRÓNICA: [MISSÃO POSSÍVEL 3: MADAGÁSCAR VII]